O Labirinto

Custa tomar uma decisão. É verdade.

Há dias em que parece que levamos o mundo às costas. É difícil aceitar a impermanência das coisas. É difícil aceitar a nossa própria impermanência. É difícil realizar que os sonhos de ontem já não são os de hoje. É difícil admitir que não somos felizes com o caminho que traçámos. Por isso, negamos continuamente e levamos mesmo, este mundo e o outro às costas. E a cada passo o peso aumenta, a cada passo mais os nossos pés se afundam nas ilusões criadas. E sabemos que mais um passo e perdemo-nos naquele labirinto que nos puxa, para onde nada é certo, para onde nunca pensámos nem mais remotamente, querer ir. Estamos no escuro. Está frio, estamos tristes e com aquele peso às costas. Está frio, temos medo e os nossos pés estão presos na lama.

É nesse momento que choramos. Não, não precisamos de deitar lágrimas. Choramos simplesmente. Choramos para enterrar aquela vida, aquele peso. O corpo chora sem lágrimas e soluça sem soluçar. O corpo sofre por dentro e para dentro. Ofegantes inspiramos e expiramos, não estamos habituados àquele ar forte e sufocante. O coração pára. Penso que chegamos mesmo a morrer, não sei bem.

Entramos no limbo. Não temos nada. Sentimo-nos perdidos.

Surge de súbito um pensamento. Provavelmente o único pensamento.

”Se não temos nada, então não temos nada a perder, para quê ter medo de decidir?”

Primeiro recusamos, fingimos que não vemos, ouvimos, sentimos. Fechamos os olhos, tapamos os ouvidos, a boca. Cruzamos os braços, as pernas. Viramo-nos do avesso para o lado de dentro. Mas o pensamento não deixa de existir.

”Se não temos nada, então não temos nada a perder, para quê ter medo de decidir?”

Talvez porque não seja um pensamento. É mais do que isso, é uma necessidade do corpo. É algo mais profundo que está inscrito naquilo que somos, nossa essência. É algo que sabemos, que conhecemos, todavia nunca quisemos ler.

A pouco e pouco, o estômago digere o momento, o momento em que ficamos com nada. Paramos de andar em círculos e entramos no labirinto. E então começamos a chorar com lágrimas e a soluçar de verdade. O ar já não nos sufoca e o coração começa a bater outra vez. Penso que nascemos de novo, não sei bem.

Não temos nada mas temos lágrimas e gritos e um coração. Não temos nada, nem o peso nas costas, nem os pés presos na lama. Também já não temos frio, se calhar é porque já não está escuro ou então porque descobrimos como funciona o coração. Não sei bem.

Sei que não tenho nada. Sei que estou largada num labirinto e sei que já não estou triste e que já não carrego o mundo às costas. Talvez tenha nascido de novo, não sei bem.

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Ano da Serpente!!

A vida é impermanente e o ano que agora finda mostrou isso mesmo. O dragão abalou as nossas vidas com um período particularmente intenso, repleto de grandes mudanças e provações. Mas depois da tempestade vem sempre a bonança e não devemos encarar os problemas com negativismo. Aliás, é graças a eles que evoluímos. São o desafio e a adversidade que permitem que testemos os nossos limites e percebamos que podemos ir mais além. É em momentos difíceis que se proporciona a mudança.

A mudança é algo necessário, precisamente, devido à natureza impermanente das coisas. Nada é sólido, tudo está em constante mudança mas muitas vezes torna-se difícil aceitarmos isso. Daí que, quando por um motivo ou por outro, temos a necessidade de mudar para nos adaptarmos a alguma situação, sofremos. E sofremos simplesmente porque somos ignorantes e nos recusamos a ver com clareza o que nos rodeia.

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Portanto, espero que a agitação que o dragão causou nas nossas vidas tenha agora, com a serpente, a possibilidade de acalmar. Que a nossa mente aos poucos fique mais clara e menos turva e que os olhos da serpente sejam os nossos. E, deste modo, nos permitam ver a realidade com sabedoria, para que sejamos todos mais felizes e tenhamos mais amor.

Bom ano da Serpente para todos!! 🙂

Lu Jong

O Lu Jong ou Yoga Tibetano é um tipo de yoga com movimentos mais subtis e com finalidade terapêutica, tendo surgido da combinação de conhecimentos de Medicina Tibetana com a observação da natureza.

Pratico Lu jong já há algum tempo e posso, garantidamente, afirmar que  com esta prática sinto o meu corpo a mudar. Aos poucos a dor inicial, resultante da falta de flexibilidade, transformou-se em prazer e realização, fazendo do momento de prática algo mais meditativo e profundo.

Claro que os benefícios não surgiram todos de uma vez. Inicialmente, pensei que nunca fosse conseguir atingir a postura correcta e, acima de tudo sentir, verdadeiramente, os benefícios que advêm desta prática. É verdade, sentia-me desconfortável. O meu corpo rígido oferecia resistência a todo o tipo de movimento, inclusivamente, os mais subtis. E a minha mente, pouco focada, impedia-me de desfrutar o momento presente.

Mas, com o passar do tempo, as articulações começaram a ceder e gradualmente uma onda de amor foi preenchendo o meu corpo, inundando a minha mente e permitindo acima de tudo que esta prática seja um momento único e especial.

Tudo se consegue com esforço e dedicação, quando se tem a correcta motivação.

Agradeço desde já à minha professora Ana Luísa Taboada  pelo estímulo, amor e dedicação.

 

Namasté.

Muralhas e Liberdade

Todos temos a tendência suicida de agarrar os momentos que nos trouxeram felicidade camuflando tudo o resto, achando que é para sempre e que nunca nada vai mudar. Somos camaleões de muito má qualidade, apenas mudamos de cor por fora. Acreditamos na imutabilidade e construímos a pouco e pouco uma muralha sólida e inflexível à qual chamamos amor.

Esquecemo-nos continuamente que a vida é impermanente. Esquecemo-nos que somos livres e que o amor não é mais que  liberdade. Confundimos amor com prisão e paixão com tortura. Vivemos num sonho de ilusões. Contudo, os sonhos não duram para sempre e ninguém consegue fugir muito tempo à sua natureza. Mais cedo ou mais tarde a solidez e inflexibilidade sufocam-nos e, mesmo sem razão aparente, somos infelizes. Somos infelizes à custa das nossas raízes que  dia após dia nos alimentaram com  seiva contaminada turvando a nossa mente. E é nesse momento que somos assaltados pelos mais diversos pensamentos. A nossa mente vira um turbilhão de emoções. E tentamos agarrar-nos às memórias, ao passado. E quando menos esperamos, a terra que sustem a nossa muralha transforma-se em areia. As fundações que suportam a nossa estrutura esmigalham-se. E nós, nós ficamos perdidos porque nunca ousámos ser verdadeiramente livres.

Então começamos a pensar no futuro. Projectamos outra muralha, desta vez mais robusta, mais calculada, fazemos até análises ao solo. Tudo é visto e monitorizado ao pormenor. Desta vez, nada pode falhar. Mas, uma vez mais, esquecemo-nos do vento. O vento vem, mais cedo ou mais tarde e, sopra. Sopra muito. Vezes sem conta e sem parar. E a nossa muralha, aquela que estamos a construir para amanhã ser o nosso forte, o nosso abrigo. Sim, essa mesmo. Cai, antes de começar a ser o que tínhamos idealizado.

Não adianta viver no passado, já passou, não temos como lá voltar. Não adianta viver no futuro, o amanhã vai tardar sempre em chegar e a natureza tratará de nos pregar as suas partidas nos ‘’entretantos’’. Não adianta criar expectativas rígidas e sólidas, porque a seu tempo estas nos vão trazer sofrimento.

Porque a vida é impermanente e o único momento que temos é o agora. Agora eu estou aqui, agora eu vou ser feliz. Agora eu posso tudo o que eu quiser. E, acima de tudo, agora eu sou livre. Sou livre do passado e do futuro. Sou livre e sou amor e não tenho uma muralha, apenas algumas pedras que sobraram de todas as muralhas que já tentei construir. Gosto muito mais delas assim. Não travam o vento e dançam na areia. No fundo, elas são eu e eu sou elas. No fundo são amor e eu também.

EGO

Todos nós temos um eu. Todos nós achamos que o mundo gira ou deve girar à nossa volta. Todos nós somos um bocadinho egoístas. Todos nós nos sentimos frustrados quando algo não corre bem. Todos nós tentamos ser sempre os melhores. Melhores que os outros. E porque? Por causa do nosso ego.

O nosso ego alimenta-se dos elogios que recebemos, alimenta-se daquilo em que somos bons, daquilo em que somos melhores que os outros. De uma maneira geral o nosso ego cresce connosco e à medida que se torna maior, maior é também a sua interferência na nossa vida. Maior é o nosso apego, maior é o nosso medo, maior é a nossa raiva, maior é a nossa insegurança.

E tentando ver por qualquer que seja o prisma, o ego não pode nunca fazer-nos felizes. Porque se baseia em sermos, em vivermos contra a nossa essência. O ego escuda-nos de nós próprios. Impede-nos de sermos quem somos. Porque nos faz sempre ser e querer ser diferentes.

Na verdade, quem possui um grande ego aparentemente parece não ter problemas. Parece que tudo corre bem. E o ego continua a crescer. Todavia, quando algo não corre bem. Quando já não somos assim tao bons, quando a critica chega, quando falhamos.. quando o nosso ego fica ferido, sangramos por dentro. E sim, dói muito. Dói porque o nosso ego se transformou na coisa mais importante da nossa vida. Dói, porque é por causa dele que vivemos continuamente no passado e no futuro. Dói, porque por causa dele descentramo-nos de nós mesmos e de viver o momento presente.

Não interessa o tamanho do ego. Não interessa se é grande ou pequeno. Porque os grandes egos gostam de pisar. E os pequenos gostam de ser vítimas a vida toda! E atenção, uma coisa não e melhor que outra. Porque nenhum dos caminhos é o do amor.. Nós somos amor. Apenas temos de o saber usar, canalizar e acima de tudo, não ter medo de o dar, nem de o receber.

Mas para isso temos de nos centrar em nós. Focarmo-nos no que é realmente importante. Focar no momento presente. Só uma vez focados em nós, conseguimos perceber a nossa verdadeira essência. Só quando focados em nós podemos sentir amor, podemos sentir-nos felizes. E só depois disso poderemos cortar com o nosso ego e dar o nosso amor e compaixão aos outros.

É curioso. Normalmente as pessoas associam o egoísmo àquele que se centra em si. Mas o que as pessoas não percebem é que se não estiverem centradas em si, e no momento presente, não são elas próprias, não são felizes, e por isso também não podem trazer nada de bom a ninguém.

É acima de tudo importante entender-se que o passado já passou. Não o podemos alterar. Ninguém tem esse poder. Por isso de que nos adianta passar a vida a falar e a pensar no passado, se não o podemos viver de novo. E o futuro, o futuro é amanha, é pura ilusão. Nunca vai acontecer. Por isso também não temos de nos preocupar com isso. Ninguém pode prever o seu futuro. Mas, podemos obviamente viver o presente. Melhor, podemos viver. Porque a nossa existência é no presente. Para quê continuar a desperdiçar a vida com outros tempos que não podemos manipular.

Às vezes  vivemos uma vida inteira e no fim.. Percebemos que ela nos passou ao lado. Porque nunca estivemos centrados em nós. E isso é uma pena. A vida é uma dádiva, é a oportunidade de crescimento pessoal. Deve ser aproveitada, não desperdiçada.